O Brasil diante de um novo ciclo histórico: soberania, BRICS e os desafios da multipolaridade
A reeleição de Lula, a mensagem de Vladimir Putin e o fortalecimento do BRICS abrem um novo ciclo para as relações Brasil–Rússia. O presidente da Câmara analisa as oportunidades, do SPIEF 2027 à inteligência artificial.

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro de 2026, para um quarto mandato à frente da República, constitui um acontecimento de significativa dimensão política e histórica. Seus desdobramentos ultrapassam as fronteiras nacionais e merecem ser examinados à luz das profundas transformações geopolíticas, geoeconômicas e tecnológicas que caracterizam o mundo contemporâneo.
Mais do que o encerramento de uma disputa eleitoral, o resultado inaugura um novo ciclo de responsabilidades para o Brasil, em um cenário internacional marcado pela redistribuição dos centros de poder econômico, pelo avanço de tecnologias estratégicas, pela reorganização das cadeias produtivas e pela crescente participação de países emergentes nas discussões sobre a governança global.
A eleição também evidenciou a importância crescente das plataformas digitais e das novas formas de comunicação política. A circulação de informações, a participação dos cidadãos e a formação do debate público vêm sendo profundamente modificadas pelas tecnologias digitais, fenômeno que exige atenção à transparência, à qualidade da informação e à utilização responsável desses instrumentos.
O resultado eleitoral ocorreu em um ambiente de intensa polarização e confirmou a importância das instituições democráticas e do respeito à pluralidade de opiniões. As divergências políticas são legítimas e inerentes à democracia, mas não devem impedir o diálogo institucional nem comprometer a continuidade de iniciativas voltadas ao desenvolvimento nacional.
Sob a perspectiva das relações internacionais, interessa-nos especialmente compreender as oportunidades que se apresentam para a atuação brasileira em um mundo em transformação e para o aprofundamento de parcerias estratégicas, entre elas o relacionamento histórico com a Federação da Rússia.
A mensagem de Vladimir Putin e a dimensão estratégica das relações bilaterais
Entre as manifestações internacionais que se seguiram ao resultado eleitoral, merece especial destaque a mensagem encaminhada pelo presidente da Federação da Rússia, Vladimir Putin, ao presidente Lula.
Ao cumprimentá-lo pela reeleição, o chefe de Estado russo ressaltou suas qualidades de liderança, o compromisso com o desenvolvimento socioeconômico sustentável do Brasil, e a defesa da soberania nacional e dos legítimos interesses brasileiros no cenário internacional.
Putin também enfatizou a contribuição pessoal de Lula para o fortalecimento da parceria estratégica entre Brasil e Rússia, manifestando disposição para aprofundar a cooperação bilateral e a atuação conjunta em organismos e mecanismos multilaterais, especialmente a Organização das Nações Unidas, o BRICS e o G20.
O conteúdo da mensagem reafirma a importância atribuída pela Federação da Rússia ao Brasil como interlocutor internacional e à continuidade de uma agenda bilateral com considerável potencial de expansão.
As relações entre Brasil e Rússia não podem ser reduzidas a circunstâncias políticas passageiras. São relações entre Estados continentais, economias, sociedades, instituições científicas e comunidades empresariais que, ao longo de décadas, desenvolveram vínculos de complementaridade e interesses recíprocos.
É precisamente nessa perspectiva que a Câmara Brasil–Rússia compreende sua missão institucional com responsabilidade e total comprometimento.
Trinta e oito anos de experiência: da União Soviética à construção de uma nova ordem internacional
Minha experiência nas relações econômicas e institucionais entre Brasil e Rússia remonta a 1988, quando comecei a atuar diretamente no comércio exterior e na logística marítima de mercadorias entre os dois países.
Naquele período, a União Soviética ainda existia. O mundo estava estruturado em torno de uma lógica bipolar, e as relações econômicas internacionais refletiam, em grande medida, as divisões ideológicas e estratégicas da Guerra Fria, então em sua fase final.
Acompanhei, como profissional ligado ao comércio exterior e ao transporte marítimo, os últimos anos daquela realidade e as profundas transformações que se seguiram à dissolução da URSS.
Vi surgir novas estruturas econômicas, novos mecanismos de relacionamento empresarial e novas possibilidades de cooperação. Também testemunhei enormes dificuldades, incompreensões e oportunidades desperdiçadas por falta de continuidade, planejamento e conhecimento recíproco.
Ao longo dessas quase quatro décadas, consolidei uma convicção: as relações entre Brasil e Rússia devem ser conduzidas com visão estratégica, pragmatismo, respeito mútuo e independência em relação às oscilações político-partidárias.
Governos se sucedem. Conjunturas internacionais se modificam. Mas os interesses estratégicos permanentes dos países e seus povos, as necessidades de desenvolvimento e as oportunidades de cooperação econômica e tecnológica permanecem.
A história demonstra a importância de estabelecer parcerias diversificadas, sem abdicar da autonomia decisória e da defesa dos interesses nacionais.
Nesse sentido, a atual conjuntura oferece ao Brasil a possibilidade de ampliar sua presença internacional e transformar o diálogo diplomático em projetos concretos de desenvolvimento.
O BRICS como instrumento de transformação econômica e institucional
A crescente relevância do BRICS constitui um dos fenômenos mais importantes das relações internacionais nas primeiras décadas do século XXI.
O agrupamento, cuja formação original reuniu Brasil, Rússia, Índia e China, posteriormente incorporando a África do Sul e ampliando sua composição, expressa a busca por maior representatividade de economias emergentes e países do Sul Global nos processos de governança internacional.
Seu fortalecimento não precisa ser interpretado como a substituição de uma hegemonia por outra, tampouco como um projeto de isolamento em relação às economias ocidentais.
O desafio é construir uma ordem internacional mais equilibrada, inclusiva e representativa, na qual diferentes centros de desenvolvimento possam coexistir, cooperar e negociar em condições de maior reciprocidade.
Multipolaridade não significa antagonismo obrigatório, mas pluralidade de interlocutores, autonomia de decisões e ampliação das possibilidades de cooperação.
Para o Brasil, essa perspectiva é especialmente relevante.
Nossa dimensão territorial, a diversidade de nossa estrutura produtiva, a disponibilidade de recursos naturais — inclusive minerais estratégicos e terras raras —, o potencial agroindustrial, a capacidade científica e tecnológica e a importância de nosso mercado interno conferem ao país condições para exercer um papel de articulação entre diferentes regiões do mundo.
A cooperação no âmbito do BRICS pode contribuir para a diversificação comercial, o desenvolvimento de infraestrutura, a modernização industrial, a segurança alimentar, a transição energética e a construção de soluções financeiras adaptadas às necessidades das economias emergentes.
É fundamental, entretanto, que esse potencial não permaneça restrito a declarações diplomáticas, mas se converta progressivamente em iniciativas empresariais, investimentos produtivos, transferência de conhecimentos e resultados mensuráveis.
Do SPIEF 2026 ao SPIEF 2027: uma agenda brasileira de oportunidades
A experiência acumulada ao longo de minha trajetória demonstra que os avanços mais consistentes da cooperação internacional dependem da capacidade de transformar contatos institucionais em projetos concretos, sustentados por planejamento, financiamento e continuidade.
Essa convicção foi reforçada durante minha participação no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF 2026), realizado entre 3 e 6 de junho, quando tive a oportunidade de representar a Câmara Brasil–Rússia em uma programação de reuniões, debates e articulações empresariais e com altos dignitários governamentais.
Participei como palestrante do painel internacional Russian Jurisdiction: Advantages for Foreign Investors, ocasião em que foram discutidas questões relacionadas ao ambiente de investimentos, à integração econômica e às condições institucionais necessárias ao desenvolvimento de negócios internacionais.
A missão também possibilitou aprofundar o diálogo com instituições financeiras, representantes governamentais, organizações empresariais e entidades responsáveis pela promoção de investimentos e da cooperação econômica.
Entre essas interlocuções, destaco os contatos com o Vnesheconombank, e com a Roscongress Foundation, responsável pela organização do Fórum.
Os entendimentos mantidos em São Petersburgo reforçaram a percepção de que existe espaço para ampliar a presença brasileira nos principais ambientes de articulação econômica da Federação da Rússia.
Nesse contexto, foi discutida a possibilidade de estruturar uma participação brasileira mais abrangente em futuras edições do SPIEF, inclusive mediante a criação de um pavilhão dedicado ao Brasil.
A realização da próxima edição do Fórum, prevista para junho de 2027, poderá oferecer uma oportunidade para aprofundar essa proposta, cuja concretização dependerá de entendimentos com os organizadores, instituições brasileiras competentes e potenciais participantes.
Um espaço brasileiro concebido com objetivos estratégicos poderá reunir empresas, governos estaduais, instituições financeiras, universidades, centros de pesquisa e entidades representativas de diferentes setores produtivos.
Mais do que uma presença expositiva, a iniciativa poderá constituir uma plataforma de apresentação de projetos, atração de investimentos, promoção comercial e desenvolvimento de parcerias tecnológicas.
Entre os setores com potencial de participação destacam-se agronegócio, fertilizantes, infraestrutura logística, energia, indústria, biotecnologia, inteligência artificial, tecnologias digitais, sustentabilidade, inovação e cultura.
Do diálogo político aos projetos concretos: financiamento, ciência, tecnologia e infraestrutura
A Câmara Brasil–Rússia tem defendido que o relacionamento bilateral seja aprofundado muito além do intercâmbio comercial tradicional.
Embora o comércio de produtos agrícolas, fertilizantes, matérias-primas e bens industriais continue desempenhando papel relevante, o salto qualitativo dependerá da capacidade de desenvolver projetos de maior valor agregado.
É necessário ampliar a cooperação em infraestrutura, logística, energia, indústria, tecnologias digitais, pesquisa científica, formação profissional e inovação.
Nesse contexto, merece atenção especial a articulação entre instituições financeiras de desenvolvimento.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a instituição russa de desenvolvimento VEB.RF, historicamente associada ao Vnesheconombank, representam referências importantes para a discussão de instrumentos de financiamento de longo prazo e estruturação de projetos.
A elas se soma o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como “Banco do BRICS”, cuja atuação no financiamento de infraestrutura e desenvolvimento sustentável abre possibilidades relevantes de cooperação multilateral.
Não se trata de pressupor a existência de mecanismos automáticos de financiamento conjunto, mas de defender a construção de canais institucionais capazes de identificar projetos viáveis, estruturar garantias, mobilizar investimentos e aproximar agentes públicos e privados.
Entre as áreas prioritárias, destaco a possibilidade de maior participação de investimentos no Brasil nos setores de energia e fertilizantes, a modernização de portos e corredores logísticos, a ampliação da infraestrutura ferroviária, a integração de sistemas de transporte, a transformação digital e o fomento ao relacionamento acadêmico.
A experiência acumulada ao longo de minha trajetória profissional demonstra que o comércio exterior não se sustenta apenas em acordos e manifestações de boa vontade.
Ele exige infraestrutura, previsibilidade regulatória, financiamento, eficiência logística, conhecimento dos mercados e, sobretudo, confiança entre parceiros.
A mesma lógica se aplica à cooperação tecnológica e aos investimentos.
Inteligência artificial, soberania digital e sustentabilidade: novas fronteiras da cooperação
As profundas transformações tecnológicas em curso impõem ao Brasil um desafio adicional, de natureza estratégica: ampliar sua capacidade de desenvolver, dominar e utilizar tecnologias digitais avançadas, especialmente a inteligência artificial.
Sua crescente presença na economia, na comunicação, na pesquisa científica e nas relações internacionais vem modificando estruturas produtivas e formas de organização da sociedade.
A importância da inteligência artificial, entretanto, ultrapassa amplamente o universo da comunicação. Sua aplicação na indústria, na agricultura, na saúde, na logística, na educação, na defesa, na gestão energética e na pesquisa científica abre perspectivas de extraordinário alcance econômico e social.
Nesse contexto, considero fundamental que o Brasil desenvolva uma estratégia de fortalecimento de sua infraestrutura tecnológica, contemplando a implantação de novos centros de processamento de dados (data centers), a ampliação da capacidade nacional de computação de alto desempenho e o desenvolvimento de sistemas próprios de inteligência artificial.
A cooperação com a Federação da Rússia poderá representar uma contribuição relevante para esse processo, mediante parcerias entre empresas, universidades, centros de pesquisa e instituições de desenvolvimento.
A experiência científica e tecnológica russa, inclusive nos campos da computação, da engenharia energética, das telecomunicações e das aplicações espaciais, oferece possibilidades de intercâmbio de conhecimentos e desenvolvimento de projetos conjuntos.
Merecem atenção especial as tecnologias satelitais, inclusive os sistemas de comunicação em órbita terrestre baixa, a observação da Terra, o sensoriamento remoto e suas aplicações em conectividade, monitoramento ambiental, agricultura de precisão e planejamento territorial.
A infraestrutura digital, por sua vez, exige investimentos expressivos, disponibilidade energética, segurança cibernética, proteção de dados e capacidade de atualização tecnológica permanente.
É igualmente indispensável considerar sua dimensão ambiental.
O crescimento acelerado da inteligência artificial e dos centros de processamento de dados vem acompanhado de demandas crescentes por eletricidade, sistemas de refrigeração e recursos hídricos. A expansão dessas estruturas deverá, portanto, estar associada à eficiência energética, à utilização responsável dos recursos naturais e à incorporação de fontes de energia de menor impacto ambiental.
Nesse campo, o Brasil reúne condições relevantes, particularmente em razão da diversidade de sua matriz energética e do potencial de expansão das fontes renováveis.
A Rússia, por sua vez, dispõe de experiência em diferentes tecnologias de geração energética, inclusive nuclear, que poderá integrar o diálogo técnico sobre soluções confiáveis e ambientalmente responsáveis, consideradas as exigências regulatórias e de segurança energética aplicáveis.
A articulação dessas competências deverá observar os princípios da sustentabilidade, da viabilidade econômica e da reciprocidade, contribuindo para uma economia digital compatível com os compromissos ambientais e as necessidades de desenvolvimento.
O BRICS constitui um espaço relevante para o aprofundamento dessa agenda, inclusive por meio do intercâmbio acadêmico e científico, da formação de especialistas, do desenvolvimento de tecnologias e da mobilização de instrumentos financeiros voltados à infraestrutura digital.
A soberania digital deve ser compreendida como parte integrante da soberania econômica, científica e tecnológica dos Estados.
A Câmara Brasil–Rússia poderá contribuir para aproximar instituições e identificar oportunidades concretas de cooperação nesses setores, estimulando investimentos, transferência de conhecimentos, capacitação profissional e projetos orientados por critérios de sustentabilidade.
Soberania nacional e multilateralismo: princípios complementares
A defesa da soberania nacional ocupa posição central no atual debate internacional.
Em um mundo atravessado por disputas comerciais, sanções econômicas, tensões geopolíticas e transformações tecnológicas aceleradas, torna-se cada vez mais importante assegurar que os países disponham de liberdade para formular suas políticas de desenvolvimento e estabelecer suas parcerias externas.
Soberania, contudo, não deve ser confundida com isolamento.
Uma nação soberana é aquela que pode dialogar com diferentes interlocutores, celebrar acordos compatíveis com seus interesses e participar ativamente da construção das normas internacionais.
Além de Rússia, China e os demais integrantes do BRICS, o Brasil deve procurar manter relações construtivas com os Estados Unidos, a União Europeia, com os países latino-americanos, africanos e eurasiáticos, considerando sempre seus objetivos estratégicos.
Nossa diplomacia possui uma tradição de universalismo que não deve ser abandonada.
A ampliação das relações com a Rússia e o fortalecimento do BRICS não precisam ocorrer em detrimento de outras parcerias. Ao contrário, podem reforçar a capacidade brasileira de negociação, diversificação econômica e projeção internacional.
É justamente por isso que o multilateralismo precisa ser defendido não apenas como princípio abstrato, mas como instrumento efetivo de coexistência pacífica, desenvolvimento compartilhado e respeito à igualdade soberana dos Estados.
Democracia, divergência e responsabilidade institucional
A eleição presidencial de 2026 ocorreu em um ambiente de intensa polarização política e social no Brasil.
As divergências fazem parte da democracia. O que não pode ser relativizada é a transformação do adversário político em inimigo pessoal, nem a substituição do debate público por hostilidade, intolerância ou tentativas de deslegitimar a escolha dos eleitores sem fundamentos objetivos.
É natural que o resultado de uma eleição provoque satisfação em alguns setores, e frustração em outros. O exercício democrático exige, entretanto, que tanto vencedores, quanto derrotados reconheçam a legitimidade das instituições e a liberdade de cada cidadão para manifestar suas convicções.
Respeitar a pluralidade não significa renunciar às próprias convicções, e sim defendê-las com responsabilidade, civilidade e disposição para o diálogo.
Ao longo de minha trajetória, sempre procurei distinguir a atuação institucional da Câmara Brasil–Rússia de preferências político-partidárias individuais.
Nossa entidade é dedicada ao fortalecimento das relações econômicas, comerciais, científicas, tecnológicas, culturais e institucionais entre dois países. Sua missão transcende governos e deve acolher interlocutores de diferentes orientações políticas.
Isso não impede, contudo, o reconhecimento de que determinadas conjunturas oferecem oportunidades particularmente favoráveis ao aprofundamento da cooperação bilateral.
A continuidade do diálogo entre os presidentes Lula e Putin, assim como a valorização compartilhada do BRICS e das plataformas multilaterais, constitui um dado relevante para a avaliação dessas perspectivas.
Reconhecê-lo é uma manifestação de análise institucional e de coerência com os objetivos que orientam nossa atuação.
A Câmara Brasil–Rússia não deve ser confundida com uma organização político-partidária. Seu compromisso com a pluralidade é compatível com a defesa de temas fundamentais para sua própria razão de existir, como a cooperação internacional, a soberania dos Estados e a promoção do desenvolvimento econômico sustentável baseado na reciprocidade.
Da análise à ação: uma agenda institucional concreta para os próximos anos
O quarto mandato do presidente Lula terá início em um ambiente internacional particularmente complexo.
As transformações em curso exigirão capacidade de articulação diplomática, estabilidade institucional, políticas consistentes de desenvolvimento e iniciativas capazes de fortalecer a competitividade da economia brasileira.
O Brasil possui condições de desempenhar papel relevante nesse processo, mas os resultados dependerão da capacidade de transformar possibilidades em realizações.
Entendemos que o novo ciclo das relações bilaterais deve representar oportunidades de aprofundar o diálogo entre governos, instituições financeiras, universidades, centros de pesquisa, empresas e organizações representativas da sociedade.
À luz dessas perspectivas, a Câmara Brasil–Rússia pretende continuar orientando sua atuação para a identificação de oportunidades concretas de cooperação, sem limitar-se ao acompanhamento das relações comerciais tradicionais.
A agenda que propomos desenvolver compreende o aprofundamento do diálogo com instituições financeiras de desenvolvimento, a aproximação entre empresas e centros de pesquisa, o estímulo a investimentos industriais, a modernização da infraestrutura logística e energética e a incorporação de novas tecnologias aos processos produtivos.
Incluímos também o fortalecimento da participação brasileira em fóruns econômicos internacionais, com especial atenção às oportunidades abertas pelo SPIEF 2027.
A eventual estruturação de um pavilhão brasileiro nesse Fórum poderá constituir um instrumento de aproximação entre iniciativas públicas e privadas, desde que acompanhada de planejamento, objetivos definidos e participação efetiva de instituições privadas e governamentais interessadas
Não se trata de apresentar uma relação de compromissos já assumidos por governos ou empresas, mas de identificar possibilidades que merecem ser examinadas, articuladas e, quando viáveis, transformadas em projetos.
Nossa experiência histórica demonstra que relações internacionais sólidas não se constroem apenas com afinidades momentâneas, circunstanciais e oportunistas. Exigem continuidade, conhecimento, perseverança e visão estratégica de longo prazo.
É com esse espírito que recebo o início de um novo ciclo político brasileiro e a manifestação de congratulações do presidente Vladimir Putin: como elementos de um contexto que oferece oportunidades, mas que exige trabalho, comprometimento, planejamento e resultados concretos.
Em um mundo que passa por transformações de extraordinária velocidade e profundidade, o Brasil deve buscar protagonismo em seu próprio desenvolvimento, preservar sua soberania e contribuir para uma ordem internacional mais equilibrada, cooperativa e justa.
O desafio que se apresenta não é apenas o de fortalecer o BRICS, ou ampliar as relações entre Brasil e Rússia. É o de assegurar que essas iniciativas contribuam efetivamente para o desenvolvimento nacional, a prosperidade compartilhada e a construção de um mundo em que a soberania dos povos seja respeitada.
Da infraestrutura tradicional à inteligência artificial, da cooperação comercial à soberania tecnológica, o futuro das relações Brasil–Rússia dependerá da capacidade de transformar uma agenda de possibilidades em realizações concretas.
Essa é a perspectiva que orienta nossa atuação. E é também a responsabilidade que o momento histórico nos impõe.
Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2026
Gilberto F. Ramos — Presidente da Câmara Brasil–Rússia
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